A chegada das chuvas ao Distrito Federal reacende a preocupação com a dengue. Embora os indicadores epidemiológicos permaneçam abaixo dos níveis históricos, a combinação de temperaturas elevadas e maior acúmulo de água favorece a reprodução do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença. Diante desse cenário, o desafio das autoridades de saúde é impedir que o aumento sazonal dos casos provoque uma nova sobrecarga na rede pública de atendimento.
Segundo o boletim epidemiológico da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF), divulgado em 26 de outubro, foram notificados 12.130 casos suspeitos de dengue entre janeiro e 24 de outubro de 2026. Desse total, 11.107 notificações atenderam aos critérios de definição de caso adotados no levantamento, sendo 3.652 classificadas como prováveis e 231 confirmadas. Entre os casos confirmados, 16 apresentaram sinais de alarme. Até o período analisado, não havia registros de mortes ou casos de dengue grave.
A epidemiologista e mestre em Saúde Pública Michele Montier explica que a mudança climática característica desta época do ano exige atenção redobrada. “A chegada das chuvas, aliada ao calor típico do período, cria o cenário ideal para a aceleração do ciclo de vida do Aedes aegypti — do ovo à forma adulta. A expectativa epidemiológica é de um aumento sazonal natural nos registros de casos”, afirma.
Segundo a especialista, a possibilidade de uma nova epidemia depende da quantidade de mosquitos em circulação e dos sorotipos virais aos quais a população está suscetível. “A prevenção intensificada neste momento de transição é o fator determinante para evitar que o aumento se transforme em uma epidemia de grandes proporções”, alerta.
Os dados da SES-DF mostram que a Região de Saúde Sudoeste concentra o maior número de casos prováveis de dengue em 2026, com 913 registros. Em seguida aparecem as regiões Leste, com 608, e Oeste, com 564. Entretanto, quando considerada a incidência proporcional à população, a Região Leste lidera o levantamento, com 164,2 casos por 100 mil habitantes, seguida pelas regiões Sul (142,3) e Oeste (133).
Michele explica que áreas densamente povoadas ou com crescimento urbano acelerado podem apresentar condições favoráveis à proliferação do mosquito. Entre os fatores de risco estão o descarte inadequado de resíduos, a presença de terrenos com lixo acumulado e o armazenamento de água em recipientes sem vedação.
“O mosquito não escolhe classe social, mas ele se multiplica onde encontra mais recipientes com água”, ressalta a epidemiologista. Ela cita regiões como Ceilândia, Samambaia, Taguatinga, Sol Nascente e Planaltina como localidades que exigem atenção às condições ambientais e urbanas.
Apesar dos registros, o boletim da SES-DF aponta que a incidência da dengue permaneceu abaixo do padrão histórico durante praticamente todo o ano, sem evidências de situação epidêmica ou de alerta até a semana epidemiológica 42. O monitoramento laboratorial identificou a circulação dos sorotipos DENV-1, DENV-2 e DENV-3, com predominância deste último.
Para Michele, o cenário de menor transmissão não elimina a necessidade de vigilância. “Mesmo em períodos de menor transmissão, o vírus continua circulando de forma endêmica no Distrito Federal”, destaca.
A capacidade de resposta da rede pública de saúde é um dos principais pontos de atenção diante da possibilidade de aumento dos atendimentos. Na avaliação de Michele, o Distrito Federal avançou na preparação para enfrentar a doença após a epidemia de 2024, especialmente com a organização de estruturas de atendimento e hidratação, a descentralização dos protocolos clínicos e a ampliação da vacinação.
A especialista, no entanto, ressalta que a preparação precisa considerar a disponibilidade de profissionais, exames diagnósticos e materiais para o tratamento dos pacientes. “Os principais gargalos em momentos de pico de arboviroses envolvem a sobrecarga dos serviços de urgência, a garantia de reposição rápida de insumos para hidratação venosa e oral, a disponibilidade ágil de testes diagnósticos”, explica.
Embora a epidemiologista avalie que houve avanços na organização dos serviços, os boletins epidemiológicos não apresentam um levantamento específico sobre a quantidade de agentes disponíveis, a frequência das visitas domiciliares ou os estoques atuais de insumos da rede pública. Esses dados são necessários para dimensionar a capacidade operacional do DF diante da temporada de chuvas.
Michele também destaca a importância dos agentes de Vigilância Ambiental em Saúde na identificação e eliminação de criadouros. Segundo ela, as visitas permitem localizar focos que muitas vezes passam despercebidos pelos moradores, como calhas, ralos externos e caixas-d’água mal vedadas, além de promover orientações preventivas.
Vacinação e prevenção
A vacinação é outra estratégia de proteção contra a dengue. No Distrito Federal, a campanha é destinada a crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, com aplicação de duas doses e intervalo de 90 dias entre elas. Pais ou responsáveis devem apresentar documento de identificação e caderneta de vacinação.
Quem teve dengue antes de iniciar o esquema vacinal deve aguardar seis meses após a infecção. Caso a doença seja contraída depois da primeira dose, a segunda poderá ser aplicada na data prevista, desde que tenham transcorrido pelo menos 30 dias desde a infecção. A vacina possui contraindicações, incluindo determinadas condições de imunodeficiência, gestação e amamentação. A relação de unidades que oferecem a vacina, com os respectivos locais e horários de atendimento, pode ser consultada no site oficial da Secretaria de Saúde do Distrito Federal.
Fonte Jornal de Brasília
Foto: Geovana Albuquerque/Agência Brasília












